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Nos últimos dias participamos do 7º Congresso Latino-americano de Enoturismo promovido pelo Ibravin, Aenotur e Estado do Rio Grande do Sul, que ocorreu no Hotel Spa do Vinho, no Vale dos Vinhedos, com o objetivo de apresentar casos de sucesso, novidades para o setor e estratégias de negócio.

Surpreendentemente, logo no primeiro panorama, Deborah Villas-Bôas Dadalt, representante da Aprovale, trouxe indicativos interessantes. Ao contrário do que muitos pensam, o enoturista antes de se perguntar para onde vai, questiona-se para que viajar e por quanto tempo, para depois definir o destino de viagem. Esse é um indicativo importante para as vinícolas começarem a pensar sobre o porquê o viajante vai escolher o seu vinho, a sua pousada, a sua degustação e não a do vizinho. Ou por que ele escolheria a Serra e não o litoral.

Saiba mais sobre: 5 PASSOS PARA DESENVOLVER O ENOTURISMO EM UMA VINÍCOLA

Essa já foi uma interessantíssima introdução para deixar todos os participantes em total reflexão. Já no segundo dia, a Master of Wine Liz Thach apresentou o case de Napa e Sonoma Valley. Bem, com números arrebatadores, ela não deixou ninguém piscar. A Califórnia recebe 23 milhões de enoturistas por ano e o enoturismo nos EUA movimenta 17,6 bilhões de dólares.

Mãos à obra vinicultor! Gaste seu tempo mais com estratégia de comércio e com a excelência do produto e muito menos no operacional, na contabilidade, na cobrança de devedores, nos contratos com representantes e tantas outras coisas que tomam seu tempo hoje.

 

importância de construir estratégias de venda direta ao consumidor

Nesse ponto, Liz explicou a importância de construir estratégias de venda direta ao consumidor – durante o Congresso inteiro se falou sobre isso. Ressaltou as diferenças entre os enoturistas de Napa que buscam, em ordem decrescente, degustação de vinhos, jantares, passeios, compras e o trem do vinho (semelhanças com nossa Maria Fumaça?) e os de Sonoma que, também na mesma ordem, buscam relaxar, jantares, romance, degustação de vinho e recreação. Ou seja, locais com 30 minutos de distância já possuem diferenças marcantes e, por isso, estratégias de negócio distintas.

Assim, ela apresentou 5 passos interessantes para construir regiões vinícolas atrativas, os quais eu passo a listar abaixo:

1. Identificar um produto ícone para a região:

Assim como nossos vizinhos Uruguai possuem o Tannat, a Argentina possui o Malbec e o Chile possui o Carmenere, há sugestões não só da Master of Wine, mas de outros congressistas no sentido de que nosso produto ícone seria o espumante que, por sinal, tem suas vendas em franco crescimento;

2. Coesão de atores – colaboração total.

Esse passo foi também enfatizado por outros congressistas. É necessário que a região esteja toda preparada para receber esse enoturista. Que as vinícolas tomem atitudes colaborativas, que ofereçam experiências diferentes entre si, mas sempre mantendo sua essência;

3. Aceitação das marcas territoriais.

A importância de perceber que a marca do território, que respeita características próprias, ou o conhecido terroir, é mais relevante para o crescimento do que a marca de sua própria vinícola. Aqui se destacam diversos pontos do mundo em que o consumidor não solicita o vinho pela marca da vinícola, mas sim pela região.

4. Desenvolvimento de uma marca, bem como de uma história regional e única.

Liz destacou como o enoturista gosta de ouvir a história do local, algo que não pode ser repetido em nenhum outro lugar do mundo, algo que ele só poderá vivenciar estando no local. Além disso, é possível um desenvolvimento de slogans e logomarcas próprias que tenham a ver com a região e usou a Nova Zelândia como exemplo: “Embrace the fear” que numa tradução simples seria algo como “Abrace o medo”, já que o país é conhecido pelos esportes radicais.

5. Gerenciamento regional unificado

Gerenciamento regional unificado por uma associação que contemple todos os valores e leve a ideia adiante para que todos atinjam os objetivos.

 

estratégias de vinícolas americanas

Falou também sobre as muitas estratégias de vinícolas americanas para agradar todos os tipos de público.

Evento

A regra número 1 se chama: evento! E eles realizam muitos mesmo. Isso fomenta o movimento de turistas o ano inteiro, excluindo a necessidade do frio para vender vinhos ou a sazonalidade de turistas por conta da safra da uva.

E-commerce

Já a regra número 2 é: E-commerce, incluindo-se tudo que envolve isso: social media (facebook, instagram, tripadvisor), vídeos virais como o Despacito Embotellado da Jordan Winery, lista de contatos, lista de espera (sim, vinicultor brasileiro, lista de espera!) para venda de vinhos especiais.

 

cenário brasileiro

Depois da fala de Liz tivemos a apresentação impecável de Diego Bertolini, diretor de promoção do Ibravin, que passou o cenário brasileiro. Aqui tivemos um dado interessante: 15 vinícolas vendem 65% dos vinhos e derivados no Brasil. Ora, o pessimista vai pensar: puxa, não adianta eu investir nisso. O otimista, ou melhor ainda, o “realista esperançoso”, como disse Ivane Fávero, vai olhar para esse dado e dizer: nossa, tem muito mercado para o meu excelente produto.

Sobre a apresentação do Diego, minha visão é: mãos à obra vinicultor! Gaste seu tempo mais com estratégia de comércio e com a excelência do produto e muito menos no operacional, na contabilidade, na cobrança de devedores, nos contratos com representantes e tantas outras coisas que tomam seu tempo hoje. E digo isso com base em três cases nossos: Jolimont com Marçal Duarte Velho, Vinícola Cainelli com Roberto Cainelli Júnior, Rogério Valduga da Vinícola Torcello (número 1 do Tripadvisor) e Giovâni Silveira Peres da Vinícola Batalha.

oportunidades de desenvolvimento do turismo no Pampa Gaúcho

Já no dia 29, último dia de conferências, o SEBRAE, parceiro fundamental do setor, através de Amanda Paim apresentou as oportunidades de desenvolvimento do turismo no Pampa Gaúcho, sendo a teoria do SEBRAE seguida imediatamente pela prática da Vinícola Campos de Cima pelas palavras inspiradoras de Hortência Ravache Brandão Ayub de Itaqui.

 

debate sul-americano

Então, passamos por um debate sul-americano, com estratégias do Uruguai (adorei a ideia do Festival da Poda, mais uma vez: evento, evento, evento), Argentina que apresentou como está unindo a arte (música, pintura e escultura) e as vinícolas, Chile e Brasil, já tratando aí de uma macro região enoturística, com respeito às suas características próprias. Como pontos de destaque, é interessante mencionar as vinícolas registradas como operadoras de turismo (já são 30 no Uruguai) e também o fato de que diversas vinícolas tratam o enoturismo como produto, com análise própria de quanta receita é gerada pelo turismo, não sendo ele uma complementação.

Portugal, representado por José Calixto e José Arruda, também trouxe ideias muito práticas para todos os participantes, com desenvolvimento de vídeos de tirar o fôlego e fazer com que os participantes quisessem encerrar o congresso e, definitivamente, pegar a mala e ir viajar para regiões tão lindas como as apresentadas.

Finalizando, foi anunciado para o segundo semestre o desenvolvimento de uma Plano de Enoturismo para o Rio Grande do Sul, o que será de grande valia para os que já estão atentos, sempre com o apoio essencial do SEBRAE e Ibravin.

O último pitch do Projeto de Enoturismo do SEBRAE foi dos Freis Capuchinhos de Vila Flores. Vendo a diminuição ano a ano dos seminaristas, os freis tomaram a acertada decisão de investir em turismo. Hoje possuem a já conhecida vinícola que produz o vinho Frei Fabiano e também a Pousada. Com tantos quartos à disposição, por que não gerar renda de um lado e bem-estar de outro? Turismo para todos os públicos se faz com ampla oferta.

Já o painel que trouxe o Deputado Afonso Hamm, da Frente Parlamentar do Vinho e outros representantes da área pública do Turismo, bem como Andrea Faria do SEBRAE, deixou claro que já passou do tempo em que a vinícola era só um lugar de produção de vinho e que as preocupações do vinicultor ficavam entorno de levar vinhos em mercado.

É necessário estar muito mais atento à identificação de oportunidades. Andrea destacou também o desconhecimento do vinicultor sobre os incentivos que estão a sua disposição para desenvolver o negócio.

É importante começar a diferenciar as receitas da produção de vinhos das que advém das experiências turísticas.

Falou-se sobre a alta rotatividade da vinícola e a excessiva quantidade de normativas que regulam o turismo rural: 34 no total.

 

Conclusão

E para finalizar, ficou claro que é preciso que o vinicultor deixe de ser multitarefas e conte muito mais com as assessorias contábil, jurídica e de marketing, para liberar “espaço” para ele enxergar as oportunidades que estão bem na sua frente e que vários já perceberam há algum tempo.

Excelentes aprendizados nos trouxe o Congresso da Aenotur. Já estamos ansiosos pelo próximo!

Juliana Rebellatto Locatelli

Advogada graduada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Conciliadora do Juizado Especial Cível da Comarca de Garibaldi/RS. Membro da Association Internationale des Juristes du Droit de la Vigne et du Vin (AIDV). Assessora Jurídica do Município de Coronel Pilar - RS. Membro da APEME Mulher de Garibaldi/RS.

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