Quando os dados da empresa não conversam entre si, quem responde?
Uma ação recente da Receita Federal ajuda a revelar um problema que vai muito além do tributário: empresas que ainda operam com informações fragmentadas entre áreas, sistemas e decisões.
A Receita Federal iniciou uma ação de conformidade após identificar inconsistências em créditos de PIS/Pasep e Cofins informados por empresas. A identificação ocorreu a partir do cruzamento eletrônico de dados.
A questão tributária é o ponto de partida. O impacto empresarial é o que nos interessa aqui.
Quanto mais digital se torna a fiscalização, menos espaço existe para uma empresa funcionar em silos.
Fiscal, financeiro, contabilidade, tecnologia e diretoria estão olhando para a mesma empresa?
Na prática, uma organização pode ter diferentes áreas produzindo, recebendo e interpretando informações sobre uma mesma operação.
O fiscal trabalha com determinados dados. O financeiro acompanha outros. O ERP registra a operação. A contabilidade recebe as informações. E a diretoria toma decisões a partir do que chega até ela.
Enquanto essas informações permanecem coerentes, a fragmentação pode passar despercebida.
O problema aparece quando sistemas externos começam a cruzar dados produzidos em diferentes pontos da própria organização.
Nesse cenário, uma inconsistência deixa de ser apenas uma questão operacional. Ela passa a revelar uma questão de governança da informação.
Quem é responsável por perceber que os dados não conversam?
Não basta definir quem produz determinada informação.
Empresas também precisam estabelecer quem verifica sua consistência, quem acompanha mudanças regulatórias, quem transforma essas mudanças em processos internos e quem leva os riscos relevantes para os responsáveis pelas decisões.
É justamente aí que compliance e governança deixam de ser estruturas abstratas.
Eles aparecem na definição de responsabilidades, nos fluxos de informação, na integração entre áreas, nos controles internos e na capacidade da organização de identificar uma inconsistência antes que um terceiro a identifique.
A Reforma Tributária torna essa conversa ainda mais importante
A transformação em andamento não ficará restrita à forma como os tributos são calculados.
Novos documentos, sistemas, integrações e processos tendem a exigir adaptações de diferentes áreas da organização.
E uma mudança que começa no fiscal pode rapidamente chegar ao financeiro, à tecnologia, aos contratos, aos fornecedores e à própria estratégia empresarial.
Por isso, talvez uma das perguntas mais relevantes para os próximos anos não seja apenas se a empresa está preparada para uma nova regra.
Mas:
quem, dentro da empresa, é responsável por transformar uma mudança regulatória em uma mudança operacional?
Essa resposta diz muito sobre a maturidade da governança de uma organização.
EFEITO EMPRESA
A mudança jurídica é o ponto de partida. O impacto empresarial é o que nos interessa.
